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O look mais comentado de Roland Garros 2026 e por que ele não é Naomi Osaka

 

Corset preto. Vestido dourado com paetê. Cauda de tule saindo por trás como num editorial de haute couture. Naomi Osaka entrou em Roland Garros 2026 como se estivesse num desfile e o mundo parou para olhar.

Os looks viralizaram. A imprensa especializada cobriu. Os fãs debateram. E eu, como consultora de imagem, fiquei olhando para tudo aquilo com uma pergunta que não consegui para de pensar:

Essa roupa representa quem Naomi Osaka é?

A resposta, do meu ponto de vista, é NÃO.

O que a roupa disse e o que ela não conseguiu dizer

 

Osaka declarou nas coletivas de imprensa: “Eu não falo muito, então posso me expressar através das minhas roupas. Isso significa que posso ser tão ousada com cores, estampas ou tecidos quanto eu quiser.”

A intenção é legítima. A lógica, compreensível. Mas tem um problema central nessa equação: usar a roupa como substituto da voz exige que a roupa e a pessoa falem a mesma língua. E aqui elas não falam.

 

 

 

Naomi Osaka passa um mensagem de introspecção, introvertida. Ela mesma já disse isso publicamente em mais de uma ocasião. Usa fones de ouvido nos bastidores para lidar com a ansiedade social. Saiu de Roland Garros em 2021 sem participar de uma única coletiva porque a exposição era grande demais. Sua linguagem não verbal nas entrevistas é de recolhimento: voz baixa, olhar que desvia, presença que encolhe quando a câmera chega perto.

A roupa pede presença expansiva. Pede que o corpo ocupe o espaço. Pede que o olhar encontre o olhar. A roupa chama atenção e Naomi Osaka claramente não sabe muito bem o que fazer quando a atenção chega.

Isso não é crítica. É diagnóstico.

Serena e Vênus não são comparação pq estão em outra categoria

A própria Osaka trouxe a comparação: cresceu vendo Serena e Vênus Williams e quis trazer de volta o espírito ousado que elas tinham em quadra. Mas o que tornava o outfit das Williams funcionais não era só a ousadia das peças, era a coerência com quem elas eram

Serena entrava na quadra como quem vai tomar o espaço que é dela. O corpo dizia isso. A voz dizia isso. A postura dizia isso. A roupa era extensão natural de uma presença que já existia antes da peça. Vênus tinha uma estética própria, que espelhava a precisão do jogo dela.

Quando há coerência entre quem a pessoa é e o que ela veste, a roupa amplifica. Quando não há, a roupa expõe o vão.

Com Osaka, o que se vê é esse vão. A roupa fala alto. A postura fala baixo. E quem sabe ler linguagem não verbal percebe o descompasso antes de qualquer análise consciente.

Nem tudo que vestimos tem a ver com quem somos

Aqui está o ponto que me interessa e que raramente alguém tem coragem de colocar na mesa:

A roupa não mente. Mesmo quando a intenção é se expressar, o que o corpo, a postura faz com a roupa revela mais do que a escolha da peça.

Osaka quer comunicar ousadia através da moda. Mas a ousadia que ela sente em relação à roupa não me parece compatível com sua personalidade. É como se a escolha partisse de um desejo de ser percebida de um jeito que ainda não está integrado de dentro para fora.

E esse é exatamente a questão que eu trabalho e desenvolvo sobre imagem estratégica: não encaixar a pessoa numa roupa bonita, mas construir a coerência entre quem ela é e o que ela projeta. Sem isso, a imagem fica de um lado, a identidade do outro e as pessoas percebem, mesmo sem saber nomear o que estão vendo.

Osaka tem estilo. Tem interesse genuíno em moda. Tem referências ricas. Mas estilo sem ancoragem na própria presença vira performance  e performance cansa.

Isso acontece mais do que você imagina  e não só com tenistas famosas.

Se você já se pegou olhando para uma roupa linda no cabide, comprando, e depois sentindo que algo não encaixou quando colocou  provavelmente não era a roupa. Era a falta de conversa entre a peça e quem você está sendo agora.

Esse é exatamente o tipo de desconexão que eu trabalho. Não a peça em si , mas sim na coerência entre o que você escolhe e quem você é.